O Cinema da Angústia Existencial
“Envelhecer é como escalar
uma montanha: enquanto se sobe as forças diminuem, mas o olhar é mais livre, a
visão mais ampla e serena.”
Ingmar Bergman
Em 1997, celebrava-se o 50º
aniversário do mais importante festival de cinema do mundo: o Festival de
Cannes. Para essa ocasião única, os organizadores do evento decidiram atribuir
uma Palma de Ouro especial – A Palma das Palmas – como reconhecimento à
carreira de um destacado cineasta, não honrado anteriormente com o principal
prêmio do festival. A escolha recaiu sobre o realizador sueco Ingmar Bergman.
Bergman nasceu no seio de uma
família religiosa, seu pai era um pastor luterano, fato que deixou profundas
marcas na infância e adolescência do futuro cineasta. Temas como a morte, o
pecado, o sentimento de culpa, os castigos físicos e morais; a existência, o
silêncio, a negação, ou a manifestação de Deus foram abordados em inúmeros de
seus filmes. O realizador soube como poucos, utilizar suas neuroses, obsessões,
medos e fantasmas interiores, e transformá-las em arte, em material para uma
obra cinematográfica das mais coerentes e penetrantes do cinema. No apogeu de
sua criação artística mergulhou densamente em questões como a solidão do ser
humano, a incomunicabilidade entre as pessoas, particularmente nas relações
familiares e conjugais, e a crise proveniente da angústia existencial do homem
na sociedade moderna.
Em quase sessenta anos de
carreira deixou como legado um conjunto de obras-primas onde se destacam O Sétimo Selo, Morangos Silvestres, Persona,
A Hora do Lobo, Vergonha, A Paixão de Ana e Gritos e Sussurros, entres outras. Em diferentes enquetes de
opinião realizadas entre críticos e historiadores de cinema do mundo, o
cineasta sueco é reconhecido, não só como o mais importante de seu país, mas
como um dos mais destacados diretores da história do cinema.
Ingmar Bergman nasceu em Uppsala,
cidade a 70 km ao norte de Estocolmo, conhecida por sua universidade, a mais
antiga da Escandinávia, em 14 de julho de 1918. Filho de um pastor luterano,
cujos princípios morais marcaram profundamente a vida e a obra de Bergman.
Desde criança acompanhava seu pai durante as viagens que este fazia no
cumprimento do ofício sacerdotal e foi educado sob os rígidos preceitos
cristãos de temor a Deus e submetido a duros castigos físicos, quando cometia
alguma travessura. Mais tarde, a família se instala em Estocolmo onde o pai
iria exercer o papel de vigário numa paróquia. Nesta época, o jovem Bergman
entra a Universidade de Estocolmo, onde estudava literatura e artes, passou a
frequentar os meios literários e a se desgarrar da família. Era a época que a Europa
vivia a segunda guerra mundial, em embora a Suécia tenha permanecido neutra no
conflito, o clima provocado pela guerra era favorável a um sentimento de
angústia existencial. Bergman foi impregnado por esse sentimento e pela
filosofia de Soren Kierkegaard (1813-1855) e pelo existencialismo de Jean-Paul
Sartre e Albert Camus.
O teatro surge na vida de
Bergman desde criança, quando participava de pequenas encenações domésticas,
cujas lembranças foram retratadas no filme Fanny
e Alexander. Começou a escrever
peças de teatro com dezessete anos e produziu um total de 24 peças, sendo que
apenas seis delas foram encenadas. Como amador, começou a encenar obras no
teatro estudantil da Universidade de Estocolmo, e em vários outros recintos.
Foi contratado com diretor assistente do Teatro Dramaten de Estocolmo. Em 1944,
com 26 anos de idade, tornou-se diretor do Teatro Municipal de Helsingborg,
cargo que ocupou por três anos. Foi diretor do Teatro Municipal de Malmö, de
1953 a 1960; e do Real Teatro Dramático de Estocolmo, de 1960 a 1966. Durante
sua permanência na Alemanha, foi diretor do Residenztheater de Munique, de 1977
a 1984. Paralelamente a sua carreira no cinema, Bergman foi um destacado
encenador teatral. Entre 1938 e 2004 dirigiu cerca de 170 peças de autores tão
diversos como, Anton Tchekov, Henrik Ibsen, Molière, Peter Weiss, Georg
Büchner, August Strindberg, William Shakespeare, Eugene O’Neill, Eurípides,
Friedrich von Schiller, entre outros.
Em 1941, Bergman foi chamado
por Stina Bergman, viúva do escritor Hjalmar Bergman, para trabalhar no
departamento de roteiros da Svensk Filmindustri, que ela chefiava. Em 1945,
Bergman aproveitou uma novela que havia escrito alguns anos antes e fez um
roteiro para um filme com o nome de Tormentos.
Submetido a direção da empresa foi aprovado e o filme foi dirigido pelo mais
renomado diretor sueco da época: Alf Sjöberg. As últimas cenas exteriores do
filme foram filmados por Bergman e o filme se tornou o único sucesso dos seis
filmes que a Svensk havia produzido para comemorar seus 25 anos de atividades.
O sucesso alcançado por Tormentos
permitiu que Bergman realizasse seu primeiro filme, Crise.
Influências
Durante sua formação
intelectual Bergman foi influenciado pela corrente do existencialismo, particularmente,
de Albert Camus, pelo romancista e dramaturgo Hjalmar Bergman (1883-1931), que
ele considerava como ídolo; por Henrik Ibsen (1828-1906), o autor mais vezes
encenado em sua carreira teatral e, sobretudo, o teatro de August Strindberg
(1849-1912). Se considerar-se Fanny e
Alexander, como a derradeira obra para o cinema de Bergman, a última fala
da sua carreira é de Strindberg. Neste filme, Emilie propõe a Helena que
retomem a carreira teatral com a peça O
Sonho, de Strindberg: “Mentira e realidade são uma coisa só. Tudo pode
acontecer. Tudo é sonho e verdade. Tempo e espaço não existem. Sobre a frágil
base da realidade, a imaginação tece sua teia e desenha novas formas, novos
destinos”.
No cinema há influências
inegáveis de alguns diretores. De Victor Sjöström, que Bergman tratava como um
mestre do cinema e cuja obra, A
Carruagem Fantasma (1921), a considerava como um de seus filmes preferidos.
Bergman o homenageou com a magnífica sequência do pesadelo com a morte, em Morangos Silvestres, além de
conceder-lhe o papel principal do filme. De Carl Theodor Dreyer, embora Bergman
reconhecesse apenas semelhanças pictóricas entre seus filmes e os de Dreyer, há
outros aspectos que aproximam os dois diretores escandinavos. Ambos foram
educados sob os rígidos dogmas da religião luterana, tendo se constituído num
elemento marcante em suas vidas. É inegável, também, que os esplêndidos closes
de rostos dos intérpretes dos seus principais filmes, que são uma marca
indelével de seu estilo, encontram paralelo nos filmes O Martírio de Joana D’Arc
e A Palavra, do diretor dinamarquês.
Luis Buñuel era um de seus diretores preferidos. Embora não se possa falar em
influência, não é fortuito que o cinema de Bergman esteja repleto de sonhos,
assim como o do mestre do surrealismo.
A Temática
Bergmaniana
A Inspiração
A fonte principal de
inspiração que Bergman se utilizou para a elaboração de seus roteiros, ao longo
de sua prolífica carreira, foram os traumas, medos e neuroses desenvolvidos
desde sua infância. Uma infância marcada pelo temor a Deus, pelo sentimento de
culpa dos pecados cometidos e pelos castigos morais e físicos, fruto da rigidez
de uma educação fortemente influenciada pela religião cristã. Esses castigos,
por exemplo, foram narrados pelo personagem de Max von Sydow, no filme A Hora do Lobo, e, mais tarde,
mostrados em imagens no filme Fanny e
Alexander.
A Morte
A questão da morte, o medo da
morte ou a proximidade da morte é um dos componentes fundamentais na obra de
Bergman e está presente em quase todos seus filmes autorais. Assim se expressou
o cineasta referindo-se ao filme O
Sétimo Selo: “Naquele tempo eu ainda vivia com uns restos estiolados de uma
fé de criança, a ideia absolutamente ingênua do que se poderia chamar uma
possibilidade de salvação para além deste mundo. Tanto quanto me lembro, vivi a
puberdade e até quase fazer vinte anos com um horror terrível da morte. Chegava
a ser insuportável. A ideia de que morresse, não existiria mais, que teria que
passar pela porta escura, que havia alguma coisa que não podia controlar,
coordenar ou prever, foi para mim uma fonte permanente de medo. Que eu, de
repente, tenha tido a coragem de dar à Morte a figura de um palhaço branco,
personagem essa que conversava, jogava xadrez e não arrastava consigo quaisquer
segredos, foi o primeiro passo em minha luta contra o horror que sentia da
morte”.
Deus
O sentimento da presença ou
da ausência de Deus marca o tom de vários filmes da fase autoral que vai de Noites de Circo e culmina com Luz de Inverno. Segundo o cineasta: “com Luz
de Inverno eu me despedi do debate religioso e apresentei o resultado, o que
talvez seja de menos importância para os espectadores do que para mim. O filme
é como uma laje de sepultura que coloco sobre um conflito doloroso que, em
minha consciência, se manteve em carne viva grande parte de minha vida. As
imagens de Deus foram destruídas sem que meu sentimento de ser humano, portador
de um destino sagrado se tenha esvaecido. Com este filme ponho um ponto final
no problema”.
A Angústia Existencial
A angústia existencial,
provocada pela solidão, pelo desencanto com a vida, pela perda de algum ente
querido, ou por fatores exteriores como a violência da sociedade, ou a guerra,
talvez seja o componente mais recorrente da obra de Bergman. Ela está presente
em personagens de inúmeros filmes: o diretor da trupe esmagado por seguidas humilhações
e rejeições, em Noites de Circo; a
crise de consciência do escritor David por ter negligenciado seus laços
familiares, em Através de um Espelho;
a crise do pastor, ainda abalado pela perda da esposa, em Luz de Inverno; o abalo psicológico da atriz, em Persona; A solidão das duas irmãs num
país estranho, em O Silêncio; a
loucura do artista, fruto de traumas infantis, em A Hora do Lobo; a desestruturação moral provocada pela guerra, em Vergonha; os traumas dos dois personagens,
em A Paixão de Ana; os atritos das
duas irmãs ao se defrontarem com a morte da terceira, em Gritos e Sussurros; Os rancores e as mágoas do passado na relação
mãe e filha, em Sonata de Outono.
A Crise Conjugal
A crise conjugal decorrente
das dificuldades do relacionamento entre um casal que surgem devido à ausência
de transparência, à falsidade, às mentiras, às dificuldades da vida sexual, à
incomunicabilidade entre os seres humanos, foi brilhantemente retratado por
Bergman, entre outros, nos filmes A
Paixão de Ana e, sobretudo, em Cenas
de um Casamento.
Teatro e Música
O teatro e a música estiveram
presentes em inúmeros filmes do cineasta. A importância que o Teatro teve na
vida de Bergman – ele levou as duas carreiras paralelamente – se faz sentir nos
roteiros de seus filmes, onde há algum tipo de encenação teatral ou algum de
seus personagens pertence ao teatro.
Ensaio de uma peça teatral,
em Noites de Circo; trechos da
representação de uma peça, em Sorrisos
de uma Noite de Amor; a trupe de saltimbancos, em O Sétimo Selo, a trupe de espetáculo de magnetismo, em O Rosto; encenação familiar de uma
peça, em Através de um Espelho; uma
pantomima desempenhada por uma trupe de anões em O Silêncio; a peça Electra que desencadeia toda a trama, em Persona; a peça censurada, em O Rito; a vida de uma família de
teatro, em Fanny e Alexander; o
palco de um teatro onde se prepara O
Sonho, de Strindberg, é o cenário de Depois
do Ensaio.
A Música é parte da narrativa
de: Música na Noite (a história de
um pianista cego), Rumo à Felicidade
(história de um casal de violinistas), A
Hora do Lobo (encenação de um trecho de A
Flauta Mágica), Vergonha (os
protagonistas são dois violinistas), A
Flauta Mágica (encenação da ópera de Mozart), Sonata de Outono (uma consagrada pianista).
Na Presença de um Palhaço, seu penúltimo telefilme
exibido nos cinemas, Bergman rende um tributo às três formas artísticas que
marcaram sua vida e sua obra: o Cinema, o Teatro e a Música.
O Estilo
Bergmaniano
Com exceção de Fanny e Alexander, os filmes de Bergman
se caracterizam por serem produções de pequena envergadura, com elenco reduzido
e poucos cenários. São produções de baixo custo, inclusive para os padrões
europeus, que se por um lado, havia a limitação material, por outro,
permitia-lhe uma liberdade de ação e de criação sem restrições, livre de
imposições.
As ideias para seus filmes
brotavam de uma forma desordenada e irracional, e tomavam corpo num processo
árduo e gradativo até culminar num roteiro, o suficientemente pensado, para não
deixar margem a improvisações.
Durante a filmagem era avesso
as improvisações, salvo em poucos momentos previamente determinados como foi o
caso da cena do almoço ao ar livre, em Vergonha,
e a cena do jantar na casa do arquiteto, em A Paixão de Ana. Nestas sequências, Bergman deu as instruções que
julgava necessárias e deixou os atores improvisarem os diálogos.
O rigor do seu método de
trabalho no set de filmagem revela-se na composição fotográfica em trabalhos
extraordinariamente elaborados de Gunnar Fischer (1910-2011), que trabalhou em
12 filmes, no começo da carreira do cineasta, e Sven Nykvist (1922-2006), a
partir de A Fonte da Donzela. Do
ponto de vista pictórico os filmes O
Sétimo Selo, Morangos Silvestres,
O Silêncio, Persona, A Hora do Lobo e Gritos e Sussurros, estão entre os grandes trabalhos fotográficos
do cinema dos anos cinquenta, sessenta e setenta.
O estilo de filmagem se
diferencia do tradicional plano/contraplano do cinema clássico, notadamente a
partir dos anos sessenta, quando Bergman passa a utilizar os planos de longa
duração, ou o plano-sequência. Mas é o uso do enquadramento em primeiro plano,
ou em close, a característica mais singular do método de Bergman. Os monólogos
mais importantes em seus filmes são registrados, geralmente numa única tomada
com a câmera fixa, em primeiro plano, ou close, permitindo dessa forma,
penetrar na alma do personagem e extrair de seus atores memoráveis
interpretações. Entre os muitos exemplos, podem ser citados: o longo monólogo
da Ingrid Thulin, em Luz de Inverno;
de Max von Sydow e Liv Ullmann, em A
Paixão de Ana e, sobretudo, o monólogo interior de Liv Ullmann narrado pela
voz de Bibi Andersson, em Persona.
Os
Intérpretes Bergmanianos
Bergman destacou-se
sobremaneira na direção de atores. Suas precisas caracterizações dos
personagens, o rigor como orientava seus atores, definindo com extrema precisão
os gestos, os movimentos do corpo, o desenho da expressão do rosto, a inflexão
da voz, tornaram-no um dos maiores diretor de atores da história do cinema.
Na extensa filmografia de
mais de 40 filmes de Bergman destacam-se alguns intérpretes que se tornaram os
favoritos do mestre. Um grupo seleto de atores e atrizes que se tornaram em
porta-vozes de seus pensamentos e reflexões sobre a vida, as angústias e sobre
as tensões existentes nos relacionamentos entre as pessoas. Entre muitas outras
devem ser destacadas as interpretações de Gunnar Björnstrand em Através de um Espelho e Luz de Inverno;
de Max von Sydow, em A Hora do Lobo
e A Paixão de Ana, de Erland Josephson, em
Cenas de um Casamento e Depois do
Ensaio; de Bibi Andersson, em Persona;
de Harriet Andersson, em Gritos e
Sussurros; de Ingrid Bergman, em Sonata
de Outono; de Ingrid Thulin, em Luz de Inverno, O Silêncio, Gritos e Sussurros e Depois do Ensaio; e de Liv Ullmann, nos
dez filmes em que atuou sob a orientação do diretor sueco, sobretudo, em Vergonha, A Paixão de Ana e Face a Face.
Segundo Bergman: “Há muitos
realizadores que esquecem que o rosto humano é o ponto de partida de nosso
trabalho. Podemos nos consagrar à estética da montagem, podemos imprimir aos
objetos ou as naturezas mortas ritmos admiráveis. Mas a presença do rosto
humano é certamente a nobreza característica do filme. Decorre que o ator é
nosso instrumento mais precioso e que a câmera é apenas o mediador das reações
deste instrumento. Para dar a maior força possível à expressão do ator, o movimento
da câmera deve ser simples e cuidadosamente sincronizado à ação. Supondo todas
as qualidades técnicas reunidas, falta ainda o mais importante, a centelha que
provoca a vida interior. Esta vida misteriosa que para se manifestar exige
condições que apenas a ela pertencem. Esta vida que é o elemento, mas que não
se deixa jamais dominar”.
(30/10/11)

